quarta-feira, 13 de julho de 2011

Van Halen: Confusão Em Dose Dupla


Por Eduardo Haak

Eddie Van Halen e seu irmão Alex são bem chegados a um swing. Não, não posso afirmar que os dois façam troca de casais e outras sem-vergonhices desse naipe. O que estou dizendo aqui é que a dupla tem imensa afinidade com Benny Goodman e Gene Krupa, por exemplo. A pulsação do Van Halen é a de uma big band de swing dos anos 40 – “Hot for the teacher”, “I´m the one” e “Loss of control”, do repertório da banda, são os exemplos mais explícitos, embora haja outros. Não é, portanto, impróprio dizer que o Van Halen é uma reinvenção e uma continuidade daquele sensacional jazz arrebenta-assoalho da época da Segunda Guerra. (O Van Halen é uma banda de hard rock? Só na perfumaria, e olhe lá.)
Não é impróprio dizer também que Eddie foi um dos grandes consumadores da tradição da guitarra – ao o ouvirmos, sabemos que a guitarra se desenvolveu durante milênios para vir a ser exatamente aquilo que Eddie fez dela. Instrumentista dotado de uma capacidade técnica espantosa, Eddie foi inventor em várias instâncias – de toda uma gama de sonoridades novas, de um shape novo de guitarra, de um uso radicalmente novo para a alavanca de vibrato (foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do sistema Floyd Rose). Eddie também levou a técnica do tapping aonde ela nunca havia chegado e, acima disso tudo, virou do avesso o fraseado da guitarra, especialmente o ritmo. Seu fraseado é todo quebrado, sincopado, irregular, cheio de entradas em contratempos, quiálteras de 5, 6, 7 notas, mas, ao mesmo tempo, é nítido e fluidíssimo. E sintético. E eloquente (exposição, desenvolvimento e conclusão, sempre).
Eu arrisco a opinião de que o Van Halen (banda) é o que o bebop deveria ter sido – evolução e desenvolvimento do swing – se não tivesse se dispersado na mão de músicos que, definitivamente, não têm nem o poder de síntese e a clareza da expressão musical de Eddie. Enquanto Charlie Parker e John Coltrane se dissipam em prolixidade, Eddie consegue a feliz – e raríssima – síntese entre inteligibilidade, exuberância e concisão. Sua música tem, ainda, uma insolência meio diabólica que, se formos analisar bem, está no núcleo de toda verdadeira obra de arte. Um escritor inglês chamado Philip Larkin costuma dizer que inteligibilidade é credibilidade. Pois é: eu acredito no Eddie Van Halen como em nenhum outro guitarrista.
Eddie (Edward Lodewijk Van Halen) nasceu na Holanda, em 1955. Imigrou pros EUA quando tinha 10 anos. Começou a tocar aos 12 – idade em que também começou a manguaçar e fumar que nem uma chaminé. Há alguns anos teve um câncer na garganta, se curou, mas parece que continua querendo provar ao mundo que cigarro não é uma coisa tão oncogênica assim. (Nesses tempos de histeria antitabagista, não deixa de ser uma louvável afirmação de “estou na minha e não venham torrar meus pacovás, falou”?)

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